O setor elétrico brasileiro está passando por uma transformação em suas prioridades, com foco crescente na formação de preços, segurança de mercado e flexibilidade operacional. Esses foram os principais temas discutidos no painel "Planejamento e Equilíbrio Setorial", realizado nesta quinta-feira (19), no Rio de Janeiro, durante o Agenda Setorial 2026, evento organizado pela Informa Markets em parceria com a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (ABRACEEL).
Frederico Rodrigues, vice-presidente de Estratégia e Comunicação da ABRACEEL, abriu o painel destacando que a agenda do setor mudou. “O foco agora é formação de preço e segurança do mercado, no sentido mais amplo, incluindo a própria estabilidade do setor”, afirmou. Ele alertou para a falta de previsibilidade na formação de preços, que tem gerado distorções. “Estamos com preços elevados mesmo em cenários de corte de geração, o que é contraintuitivo”, disse. Rodrigues também apontou uma crise de liquidez que afeta comercializadores, consumidores e geradores. “O mercado está praticamente parado. Há empresas fechando mesas de operação por falta de instrumentos para atuar”, afirmou, destacando que o painel buscaria alternativas para restabelecer o equilíbrio entre oferta e demanda.
Angela Gomes, diretora da PSR, enfatizou a necessidade de antecipar decisões no planejamento do setor, incorporando fatores como mudanças climáticas e geopolítica. “Não podemos deixar de fazer o que é possível hoje esperando o ideal. Precisamos atuar agora, olhando para o longo prazo”, afirmou. Ela também destacou o papel estratégico das baterias, que podem atuar em toda a cadeia do sistema elétrico. “O custo está caindo e precisamos de uma regulação inteligente para viabilizar sua expansão”, disse. Angela alertou ainda para os riscos de decisões adiadas. “Não podemos deixar problemas nascerem e crescerem sem tratamento, porque depois eles se tornam grandes demais para serem resolvidos”, afirmou, defendendo uma abordagem pragmática e coordenada entre os agentes do setor.
Christiano Vieira, diretor de Operações do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), destacou os desafios impostos pelo aumento da participação de fontes renováveis. “O sistema precisa operar com equilíbrio em tempo real. Quando há excesso de geração, é necessário reduzir produção para manter a estabilidade”, explicou. Ele também apontou a necessidade de soluções como armazenamento de energia e maior flexibilidade operacional para lidar com a complexidade crescente. Vieira ressaltou que a curva de carga redefine as necessidades do sistema, criando espaço para novos produtos e serviços. “O sistema precisa responder ao vale, à rampa e à ponta de carga, cada um com características próprias”, afirmou, destacando a importância de ajustes no modelo para sinalizar corretamente o valor desses recursos ao mercado.
Fernando Cezar Maia, vice-presidente de Regulação e Relações Institucionais do Grupo Energisa, afirmou que subsídios no passado contribuíram para o excesso de oferta no setor. “O subsídio levou a um sobreinvestimento. Já era possível identificar que isso geraria um excesso de oferta”, disse. Ele também destacou a necessidade de flexibilidade no sistema para lidar com o novo perfil de operação, marcado pelo crescimento das fontes renováveis e da geração distribuída. Entre as soluções, Maia mencionou o papel do armazenamento de energia, microgrids e novos modelos tarifários. Ele citou projetos de tarifas horárias que já envolvem mais de cinco mil consumidores no país, mas alertou que mecanismos como a tarifa branca, isoladamente, não são suficientes para promover mudanças significativas no padrão de consumo.
João Carlos Mello, presidente da Thymos Energia, reforçou que o excesso de oferta e os cortes de geração ampliam a necessidade de flexibilidade no sistema. “O sistema hoje precisa lidar com um excesso de energia, e isso se traduz diretamente em cortes de geração”, afirmou. Ele destacou o avanço de tecnologias como armazenamento de energia e resposta da demanda como essenciais para enfrentar a variabilidade crescente da matriz elétrica. Mello também mencionou iniciativas de inovação voltadas à agregação de flexibilidade e previsão de geração e carga, ressaltando que a complexidade do sistema exige ferramentas que permitam maior previsibilidade e adaptação.
Angela Gomes concluiu o painel com um apelo por soluções viáveis e coordenadas. “O setor é um grande museu de grandes novidades. A gente nunca sai dos mesmos problemas”, afirmou. Para ela, o momento exige uma mudança de postura. “Não podemos ficar esperando o mundo ideal. Precisamos fazer hoje o que é possível para melhorar o futuro”, disse, destacando a importância da inteligência coletiva para construir avanços no setor elétrico.
O painel "Planejamento e Equilíbrio Setorial" reforçou a necessidade de ações imediatas e coordenadas para enfrentar os desafios do setor elétrico, com foco em segurança, flexibilidade e inovação.


